Teatro: A Oração

Arte: Marcelo Ewerton

SINOPSE

Murcia entra cantando « um animal que nina o mundo » e saudando os espectadores, avisa que contará uma longa história – a história do ser humano. A partir disso a cena acontece seguindo um discurso (oração) dentro das características dos bufões medievais [misturando línguas (português; francês e italiano)] e um total repúdio à moral, censura e hierarquia do poder social. A história começa com a versão mais difundida, a separação das trevas e da luz. É exatamente neste momento que Murcia começa a interferir e contar a versão explosiva das escolhas da humanidade, protegida por um deus que encobre os erros em nome de um temor a ele e de sua nobre piedade.

Utilizando água, fogo e sal, o espetáculo acontece em um grande ritual carnavalesco onde Deus e o diabo são chamados para uma conversa e a partir da não vinda dos dois, Murcia narra os caminhos da humanidade ao próprio Homem, para que ele perceba suas próprias falhas. Por último, deve partir – ninguém sabe para onde – e parte desejando sorte ao que resta do Ser Humano.

SOBRE O ESPETÁCULO

“A ORAÇÃO” é um dos espetáculos resultantes da tese de doutoramento da pesquisadora\atriz\diretora Joice Aglae Brondani, intitulada: Varda che baucco! Transcursos Fluviais de uma pesquisatriz: Bufão, Commedia dell’Arte e Manifestações Espetaculares Populares Brasileiras.

Neste espetáculo, o foco está na máscara de Bufão, fundamentado no carnaval e carnavalização, comportando um DNA Imaginal pulsantes nos princípios corporal e vital de Backthin, na ancestralidade festiva de Erico José Souza de Oliveira, no sistema de imagem de Rabelais, no Fundo Comum dos Sonhos de Bachelard e Fundo Poético Comum de Lecoq e todas as linguagens que se encontram no discurso bufonesco. Um mergulho da pesquisatriz no universo do Bufão, o qual antecede às máscaras dell’arte e do clown, através de uma poética carnavalesca e alegórica criada, principalmente, a partir do imaginário popular brasileiro, de poesias de Augusto dos Anjos e trechos incorporados de cartas de Antonin Artaud.

ESPETÁCULO “A ORAÇÃO”
Espetáculo de Bufão

SOBRE AS OBRAS QUE SERVIRAM DE INSPIRAÇÃO

Espetáculo de Bufão, criado a partir de poemas de Augusto dos Anjos, cartas de Antonin Artaud e o imaginário bestiário e grotesco da cultura popular brasileira formam um conjunto de potente poética para o espetáculo.

Augusto dos Anjos (1884-1914) nasceu na Paraíba, nordeste do Brasil e se formou em Direito pela Universidade de Recife, mas dedicou-se desde muito jovem (sete anos de idade) à poesia – tornou-se conhecido como poeta maldito.

O poeta, ator, diretor, dramaturgo, escritor e roteirista francês, Antonin Artaud (1896-1948), teve em seu percurso de vida muitos anos internados em manicômios franceses, nos quais foi submetido a tratamentos de cura tidos, hoje, como duvidosos. Sua aparente loucura era, na verdade, uma visão complexa do mundo em que a explicitava de uma forma poética de apreensão, muitas vezes, difícil e esta incompreensão por parte dos outros fez com que estes o julgassem louco.

A figura do imaginário popular brasileiro que toma forma e força através do Bufão é o Exú∕Esú – Orixá da comunicação, da fertilidade e do movimento. Guardião das aldeias, cidades, casas, das coisas que são feitas e do comportamento humano. É provocador, indecente, astucioso e sensual∕sexual, gosta de festa, de beber, enfim, gosta dos prazeres humanos. De caráter irascível, ele se satisfaz em provocar disputas e calamidades àquelas pessoas que estão em falta com ele, mas sabe ser generoso quando é bem tratado. É considerado o mais sutil e astuto de todos os orixás, mas também, o mais humano deles, sendo muito mutante em suas ações e atitudes. Com seu aspecto brincalhão e festeiro ele pode fazer o erro virar acerto e o acerto virar erro, invertendo a ordem e as situações – um dos principais princípios do Bufão.

A poesia de Augusto dos Anjos traz sempre o tema da morte, apresentando uma visão de mundo muito dialética e complexa, característica que já era presente nos seus primeiros poemas, escritos aos sete anos de idade, amadurecidos e incorporados mais adiante com as influências recebidas das obras dos filósofos Herbert Spencer Ernst Haeckel e Arthur Schopenhauer. Seus poemas são considerados melancólicos, agressivos e pessimistas, apresentam um ser humano falido, preso à tragédia da vida vivenciando-a profundamente no nascimento e na morte.

As cartas que Artaud escrevia durante seu período nos hospícios eram para ele um recurso para não perder sua lucidez. Suas palavras revelam um homem em terrível estado de sofrimento, falando de sua dor através de uma escritura mais íntima e espontânea. Na verdade, parecem diálogos desesperados que, inicialmente são direcionados ao seu médico, mas que, através dele, fala com toda a sociedade, gritando e querendo ser ouvido.

As palavras de um Exú podem ser sentenças de prosperidade, mas também de maldição. Ele não poupa ninguém das responsabilidades e conseqüências de suas ações. Com o mesmo espírito festivo, brincalhão, intrigante e ambíguo, para a pesquisadora Joice Aglae Brondani, Exú é uma das facetas de Dionísio.
Festa, ritual, morte e vida se encontram nas palavras de um Bufão que em seu discurso comporta visões como a de Artaud, Augusto dos Anjos e Exú, cuspindo ao espectador a revelação de um mundo falido graças à incapacidade de compreensão do ser humano para com ele mesmo e com seu mundo.

Dia: 27
Hora: 20 horas
Local: Sesc Arcoverde
Entrada: Franca

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