Teatro: As Bodas de Umbigolina Goiabenta

SINOPSE

A partir de seu concerto musical, Umbigolina vive diversas, difíceis e belas emoções : da dança à doença, da luta à morte e da ressurreição ao casamento.

O teatro de variedades, o circo, o clown, o nonsense, a atmosfera de sonho e a alegoria têm grande participação no espetáculo.

Palco vazio, o único cenário está no centro do palco – uma mala pequena, enfeitada e sobre ela, outra maleta menor ainda. A luz se acende, a música começa e por trás da mala, Umbigolina aparece. Como em um teatro de variedades ou show de rua, ela dança chamando a atenção do público para o concerto que irá realizar.  Depois que realiza o concerto, como uma diva recebe flores de um possível admirador secreto. Emocionada com o gesto ela as compartilha com o público. Mas após seu momento mais célebre, é tomada por um acesso de tosse. Diagnosticada a doença, toma as devidas precauções e com o tratamento, vem o sono.  Porém, na tentativa de dormir, uma briga tem início e alguém morre… a solidão se faz presente e o funeral é realizado.  Novos e sucessivos acontecimentos levam o defunto à ressurreição, qual é a alegria de Umbigolina quando alguém a pede em casamento – ela não se sente mais só.

SOBRE O ESPETÁCULO

“AS BODAS DE UMBIGOLINA GOIABENTA” é um espetáculo resultante da pesquisa de mestrado da atriz\diretora Joice Aglae Brondani, que na sua dissertação “CLOWN, ABSURDO E ENCENAÇÃO: PROCESSOS DE MONTAGEM DOS ESPETÁCULOS “GODÔ”, “TRATTORIA” E “JOGUETE”” estudou profundamente o Teatro do Absurdo, e neste espetáculo, ela adentra mais atentamente ao universo dos personagens de Beckett.

Através da ação o clown tenta expor seu modo de pensar as coisas e o mundo, carregando nisso um desejo inesgotável de viver/ser, de extinguir sua curiosidade e de fazer-se entender, chegando à invenção de uma comunicação.

A direção, inspirada no universo dos personagens de Beckett, principalmente das obras “Esperando Godot”, “Fim de Jogo” e “Ato sem Palavras”, busca uma linguagem simples, que toque o ser humano em toda a sua simplicidade e complexidade e, para isso, chega a adotar, não mais palavras, mas sons, balbucios e murmúrios incoerentes. Para sobreviver à tamanha incomunicabilidade que o ser humano criou entre ele mesmo, é preciso relacionar-se com os amigos e companheiros imaginários para ter um pouco de companhia, afeto e compreensão.

Em “As Bodas de Umbigolina Goiabenta” o clown apresenta de modo poético, absurdo e lírico as fragilidades do ser humano. Uma sequência de acontecimentos, ou números, que parecem ilógicos, mas que ao se desenvolverem nos mostram que o único absurdo é à condição de solidão a que chegou o ser humano.

ESPETÁCULO “AS BODAS DE UMBIGOLINA GOIABENTA”

Espetáculo de clown, mudo, criado a partir da obra de Samuel Beckett

SOBRE A OBRA QUE SERVIU DE INSPIRAÇÃO

O Teatro do Absurdo representa a condição de ininteligibilidade a que chegou o homem moderno em face de suas pretensões e da realidade em que vive. As obras de Beckett, importante expoente deste movimento teatral, nasceram de uma profunda necessidade de se questionar acerca da existência e da essência do ser humano, se caracterizando como sensíveis reflexões de suas angústias.

Suas peças apresentam situações familiares ao cotidiano, em contextos diferentes, combinadas/mescladas/organizadas com cenas de antigas tradições do espetáculo: circo.  Seus personagens são farrapos humanos que necessitam uns dos outros para sobreviverem aos seus destinos – são clowns do enorme circo da vida humana que agem livremente, sem possuir uma lógica explicável no âmbito social/racional e suas transições de uma emoção para outra não requerem qualquer justificação psicológica.

Tendo como ponto de partida o universo dos personagens de Beckett, o espetáculo apresenta as relações humanas, seja com o tempo, com as emoções e entre os seres humanos, deixando que o próprio espectador se coloque perante as situações reveladas. A solidão, a necessidade da presença de um duplo, a vontade de amar e de se sentir amado, ver-se como joguete do destino, a presença da morte e a ausência da vida, a vida que segue mostrando a relação entre o homem e sua condição.

A vida sem passado, nem expectativas de futuro, somente o presente, nada é preciso ser justificado, se não viver intensamente o momento com a única companhia que lhe resta – ele mesmo. Na busca de encontrar seu duplo a constatação da solidão e a necessidade de ver-se unido ao seu contrário e refletido no mesmo, o outro é o seu duplo, é o seu igual ao avesso, mas o absurdo chega à desconstrução total e seu oposto e complementar é imaginário, fruto de seu devaneio, desespero e desesperança no ser humano.  A necessidade de companhia, de alguém que o compreenda, mesmo que seja ele mesmo vestido de imaginação, deixa uma alegria (como um bilhete enviado por Godot, como o adeus imóvel de Clov).

Dependência, fracasso, um medo de encarar o que não é conhecido, uma covardia perante a possibilidade de solidão… ou simplesmente a vontade de uma vida possivelmente diferente. Como nas peças de Beckett, Umbigolina está ali, e deve seguir sua rotina, apresentar seu concerto – não se pergunta qual era sua vida antes daquele momento, nem o que será depois… ela simplesmente se relaciona com tudo intensamente, ora ri, ora chora, ora esquece e ora o tempo passa, com relações entre a tensão e o riso, mostrando ainda que podemos ter destreza com coisas complicadas e dificuldade com coisas óbvias e fáceis.

A desvalorização da linguagem, como veículo transmissor de um discurso coerente/racional, tornou-se característica marcante do teatro do absurdo, mas nem sempre Beckett usava este artifício, como em “Ato sem Palavras”, dando importância à imagem e fazendo, através dela a construção da poesia da peça – a poética surge de um “espírito irracional” e não da linguagem como conceito, opondo-se à interpretação lógica.

Dia: 27
Hora: 20 horas
Local: Sesc Arcoverde
Entrada: Franca

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